sexta-feira, 7 de janeiro de 2011

Mario Quintana

O AUTO-RETRATO
No retrato que me faço
- traço a traço -
às vezes me pinto nuvem,
...às vezes me pinto árvore...

às vezes me pinto coisas
de que nem há mais lembrança...
ou coisas que não existem
mas que um dia existirão...

e, desta lida, em que busco
- pouco a pouco -
minha eterna semelhança,

no final, que restará?
Um desenho de criança...
Corrigido por um louco!

(Apontamentos de História Sobrenatural)

Guimarães Rosa


"Tinha medo não. Tinha 
era cansaço de esperança."

quinta-feira, 6 de janeiro de 2011

O Belas Artes Vai Fechar

Durante muitos anos os arautos das tragédias proclamaram ao mundo o fim do cinema. O surgimento da televisão era o principal motivo para que a indústria do cinema, que ainda engatinhava, acabasse.
Os anos passaram, a televisão cresceu, ficou colorida, ganhou acessórios como vídeos, cds e dvds, e o cinema não acabou e nem vai acabar, mas, como tudo nessa vida, ele mudou e, pelo jeito, continuará mudando. 
As salas de cinema foram diminuindo, sairam dos centros e das ruas da cidade e viraram  conjuntos de salas em Shopping Center ou espaços grandes e com infra-estrutura. E o motivo das mudanças foi o mesmo de toda empresa em qualquer lugar do mundo, adaptação a nova realidade econômica.  É muito mais eficiente e confortável estar num Shopping, com  estacionamento e segurança, dois itens que são cada dia mais importante em qualquer sociedade.
Agora, chegou a vez de o Cine Belas Artes em São Paulo fechar as portas. Alias,  isso ocorre depois de ser anunciado por mais de 2 anos, desde que o banco HSBC deixou o patrocínio do projeto.
Hoje, na Folha de São Paulo, o cineasta Ugo Giorgetti, no final do seu artigo disse: "Não vou sentir saudades do Belas Artes, no fundo, é saudades de mim, nele". Eu penso que ele têm toda razão, afinal, o Belas Artes foi importante e cumpriu a sua função, principalmente depois dos anos 1980, quando se tornou um conjunto de salas multiplex (o terceiro do Brasil) que era administrada pela Gaumont, grupo francês que também produzia filmes.  
Mas, ninguém pode negar, que as salas eram mal ajambradas, com problemas sérios de segurança. Não foi nem uma e nem duas vezes que o corpo de bombeiros denunciou a falta de sistemas de escapes e a fragilidade do local no que se refere a segurança.
Depois, mais importante que o local é a idéia e a programação do cinema e isso, salvo algum engano, não deixará de existir. André Sturm, proprietário e responsável pelo espaço Belas Artes desde 2002, disse que já tem lugares em vista para manter o projeto vivo.
Boa sorte ao Belas Artes, que venha um novo!
Belas Artes - 2010
Belas Artes - 1981

José Saramago


"Se tens um coração de ferro, 
bom proveito. O meu, fizeram-no 
de carne, e sangra todo dia."

Clarice Lispector

- Papai inventei uma poesia.
- Como é o nome?
- Eu e o sol. - Sem esperar muito recitou: - "As galinhas que estão no quintal já comeram duas minhocas mas eu não vi."
- Sim? Que é que você e o sol têm a ver com a poesia?
Ela olhou-o um segundo. Ele não compreendera...
...- O sol está em cima das minhocas, papai, e eu fiz a poesia e não vi as minhocas...
- Pausa. - Posso inventar outra agora mesmo: "Ó sol, vem brincar comigo." Outra maior:
"Vi uma nuvem pequena
coitada da minhoca
acho que ela não viu."
- Lindas, pequena, lindas. Como é que se faz uma poesia tão bonita?
- Não é difícil, é só ir dizendo.

quarta-feira, 5 de janeiro de 2011

Martin Luther King


"Quem aceita o mal sem protestar, 
coopera realmente com ele."

A Bala Perdida

Argemiro Francisco da Silva nasceu e foi criado em Largo Verde, interior de Minas Gerais. Nunca viajou para longe, cresceu na cidade, estudou na escola primária da fazenda Santo Antônio, que era colada na cidade e tinha uma escola muito boa que ficava pertinho de sua casa.
Sempre foi um menino normal, não era o mais inteligente e nem o mais burro, sempre esteve na média. Sua família era pequena, o pai, a mãe, um tio, irmão do pai que morava no quarto dos  fundos da casa e uma tia, que era uma irmã de criação da mãe.
Quanto completou 16 anos, já trabalhava na lavoura. Seu pai morreu de infarto numa tarde de céu muito bonito de um ano bem distante. Sua mãe, não aguentou, ficou amuada, vivia com o terço na mão e não deu um ano, morreu de tristeza.
O tio foi no ano seguinte. Apesar de sempre ter sido um homem grande e muito forte, pegou uma pneumonia e faleceu em 7 dias.
Argemiro passou por tudo isso de forma serena, como um homem responsável. Enquanto a tia teve que assumir as responsabilidades da casa, Argemiro assumiu o sítio, trabalhou dia e noite e, como  uma forma de agradar aos pais e ao tio, não descansava um minuto.
Quando Miro, como agora ele era chamado pelos amigos, fez 22 anos, já era um homem feito e muito respeitado na cidade e na região. Homem simples, com pouca educação, mas bom “dimais”, como se diz nas Minas Gerais.
Foi nesse ano que Miro se apaixonou por Raquel de forma tão forte, que em menos de 6 meses estava casado. Afinal, pra casar é preciso ter casa e como se sustentar e isso, Argemiro tinha de sobra.
Durante 2 anos Miro foi o homem mais feliz da vida, sonhava dia e noite, dormindo e acordado, com Raquel, a mulher mais bonita do mundo.
Um dia, por capricho da natureza, Miro esqueceu a sua carteira em casa, quando voltou, encontrou Raquel na cama, na companhia do vizinho.
Argemiro chorou. Ficou arrasado, não sabia o que fazer, acabou não fazendo nada.
No dia seguinte, a tia morreu ao cair da pinguela no fim do quarteirão. A tia era muito teimosa e vivia andando pelas ruas, mesmo sabendo que não tinha bom equilíbrio e que já era muito velha.
Dias depois, noites sem dormir, fantasmas rindo em sua cabeça, Miro decidiu terminar com Raquel e dar um jeito na vida.
Conversou com ela, pediu para que fosse embora para bem longe e nunca mais a viu.
E depois desse dia, Argemiro nunca mais foi o mesmo. Acordava todas as manhãs no mesmo horário, trabalhava o dia todo, conversava muito pouco com as pessoas e dormia cedo.
Quanto Argemiro ia completar 40 anos, ele resolveu que queria morrer.
Não aguentava mais trabalhar, comer e dormir, sem ter qualquer expectativa ou esperança.
Argemiro ruminava e imaginava um jeito de dar cabo de sua vida. Mas sempre esbarrava num problema, sua formação religiosa. Além disso, sua falta de coragem não permitia que ele tomasse tal atitude. Então, numa noite quente, Argemiro achou a solução. Mudar para o Rio de Janeiro, morrer atingido por uma bala perdida.
A idéia era tão boa, tão perfeita, que Argemiro passou a noite em claro. Assim que o sol nasceu, saiu de casa e foi atrás do fazendeiro que era dono de quase tudo por ali, para oferecer as suas terrinhas, juntamente com sua casa.
O fazendeiro quis saber o motivo. Argemiro disse que era só e que queria conhecer o mundo, começando pelo Brasil. O fazendeiro aceitou o motivo, achou até louvável que um homem forte e só, fosse ao encontro do seu destino.
Negócio fechado, Argemiro se desfez das coisas pessoais, deu uns franguinhos para um, uns móveis para outros e em poucos dias embarcou para o Rio de Janeiro.
Aquela viagem foi longa e Argemiro pouco dormiu. Sua cabeça girava sem parar imaginando a possibilidade de ser atingido por uma bala perdida rapidamente e, ainda por cima, morrer na cidade maravilhosa.
Nem bem desceu na rodoviária do Rio de Janeiro, Argemiro foi se informar onde aconteciam os maiores tiroteios, onde morriam mais pessoas atingidas por balas perdidas.  
Em pouco tempo Argemiro já estava hospedado num hotelzinho da beira da rodoviária, já sabia onde eram os principais “pontos quentes”, os horários melhores para ser alvejado e sabia até como chegar até os locais. E assim, ele foi para o primeiro ponto.
Ficou surpreso e assustado, quando chegou o horário em que lhe avisaram que os tiros começariam e os tiros começaram de verdade.
Era igual filme, pessoas correndo, tiros vindos de cima, de baixo e dos lados. Passado o primeiro susto, Argemiro lembrou o seu intuito e, sem qualquer receio, passou a andar no meio do tiroteio.
SAI DAÍ! - as pessoas gritavam, chamavam a sua atenção, mas Argemiro andava sem direção, atravessando o campo de batalha.
Nessa noite, depois de estar muito cansado e familiarizado com as guerras das ruas, Argemiro voltou para a pensão e dormiu esgotado.
No dia seguinte, Argemiro tomou café, foi pra rodoviária, comprou um jornal que falava do tiroteio e depois de saber tudo que estava acontecendo, quais eram as ações que estavam programadas pela polícia, pegou um ônibus e foi em busca da sua bala perdida.
Por volta de 15 horas, apareceu um caveirão para entrar na favela do morro do Alemão. Argemiro sorriu e foi correndo ao lado do caveirão, como se fosse um policial especial. As pessoas mais uma vez ficaram assustadas e gritavam para ele sair dali, mas nada adiantava, Argemiro embrenhava-se na favela com a certeza de que aquele seria o seu dia.
Rezava, explicava para Deus que ele não era o culpado, que apesar de achar a vida besta e sem graça, jamais teria coragem de suicidar-se. Mas, correr o risco de morrer, isso não podia ser pecado, afinal, todos corriam esse risco cada dia mais.
E assim, Argemiro foi sendo fotografo e filmado pelas TVs, jornais, pois ficava sempre na área de maior visibilidade dos cenários onde imperava a violência. E, apesar de todo o abuso de Argemiro, os dias iam passando e nada de uma bala acertá-lo de jeito. Teve dia, que ele sentiu a bala passando do lado da sua cabeça. Chegou a ouvir o zunido, mas nada de acontecer o desejado.
Não demorou muito e o Argemiro começou a ser reconhecido pelos jornalistas, fotógrafos e editores. E a curiosidade levou um repórter a procurá-lo para fazer uma matéria. Argemiro, que nunca tinha sido procurado por ninguém e para nada nessa vida, ficou todo inchado com a notícia e, logicamente, não falou de seu plano para encontrar uma bala perdida e dar cabo de sua vida.
Falou que era do interior de Minas, que assistia àquela violência toda pela televisão e que tinha ficado tão preocupado que resolveu ir para o Rio para ver de perto como era aquela guerra e o que poderia fazer para ajudar. Não explicou por que corria riscos andando no meio dos tiroteios, mas a matéria saiu no horário nobre, o jornalista falou dele como um cidadão que se preocupava com seus irmãos e assim, quase que do dia pra noite, Argemiro começou a ficar famoso.
Logo foi convidado para ir a um programa de rádio, depois a um programa de TV regional, virou jurado de um concurso de rainha do carnaval, com certa facilidade, Argemiro gostou daquela mordomia toda e deixou de pensar na sua bala perdida.
A mídia o adotou. Argemiro passou a ser reconhecido como um ser humano diferenciado, que se preocupava com os outros humanos ao ponto de correr risco de vida. Miro foi capa de muitas revistas, participou de todo tipo de programa de rádio e televisão e acabou sendo convidado para participar de um programa desses de confinamento, como o BBB.
No auge do seu sucesso, Miro começou a namorar uma moça de 32 anos, bonita, inteligente e representante de uma ONG que se dedicava a cuidar de pessoas que sofriam violência.
A moça ficou apaixonada por Argemiro. Achava que ele era sábio por nunca ter se metido com as pessoas da cidade grande e admirava a sua coragem e ousadia.
Argemiro, às vezes lembrava-se de sua vida, do motivo que o tinha levado para o Rio de Janeiro, mas rapidamente tirava aqueles pensamentos da cabeça e corria a lembrar as boas novas e a vida que estava levando.
Um dia, Argemiro estava voltando da praia, junto com a namorada, quando encontrou na porta de casa, nada menos, que o prefeito Municipal de Lago Verde. Argemiro, que nunca havia conversado com o prefeito, ficou admirado e o recebeu com todas as pompas.
O prefeito, depois de elogiá-lo, e perguntar como estava sendo a sua vida de sucesso, explicou que estava ali em nome da sua cidade natal, para convidá-lo para uma homenagem que a prefeitura, a Câmara Municipal e todos os cidadãos de Vale Verde queriam lhe prestar.
Argemiro, que imaginava nunca mais voltar àquele fim de mundo, concordou imediatamente e até imaginou, como ia ser bom voltar famoso.
Assim, ficou acertado que no dia 23 de dezembro, às 20 horas, na Câmara Municipal de Lago Verde, Argemiro Francisco da Silva iria receber a comenda Príncipe Pedro I, a mais importante de Lago Verde, menção honrosa que só era dada a pessoas muito especiais.
No dia 22 de dezembro, Miro pegou o avião rumo a Belo Horizonte. Lá, já tinha um representante do prefeito esperando por ele e, de carro, com chapa branca e ar condicionado, foi até Lago Verde.
O fazendeiro, o homem mais poderoso de Lago Verde, convidou o Argemiro para ficar hospedado em sua casa. E fez questão de contar pessoalmente para Miro, que havia doado a casa que havia sido da sua família para a prefeitura, e que, por unanimidade, a Câmara Municipal aprovou a sua idéia de fazer um Museu Argemiro Francisco da Silva.
Naquela noite, Argemiro não conseguiu dormir.
Agora, depois de 3 anos, ele era outra pessoa. Queria viver, queria muito conhecer tudo e, principalmente, amar sua namorada e curtir o sucesso.
No dia 23, logo cedo, para o café da manhã, apareceu uma comissão de pessoas da cidade que fazia parte da organização dos eventos. Tinha almoço com a imprensa e amigos, depois uma reunião com os vereadores e por fim, às 19 horas, a entrega solene da comenda no coreto da praça pública em frente à prefeitura. À entrega se seguiria um jantar solene com baile no Clube Lago Verdense.
O dia transcorreu como um filme. A cada minuto, alguém avisava qual era o próximo passo e Argemiro seguia à risca, sorrindo, dando autógrafos e apertando a mão de muitas pessoas.
Às 19 horas em ponto, o prefeito municipal abriu os trabalhos de homenagem a Argemiro e solicitou a banda militar de Quexadinha, cidade vizinha, a tocar o hino nacional.
Logo após o hino nacional, começou o falatório, e quando já estavam todos cansados de tanta conversa fiada, finalmente, o presidente da Câmara se levantou para então, colocar no peito do homenageado a comenda.
Quem viu de longe, não entendeu. Argemiro levantou-se, caminhou em direção à mesa e sorrindo, olhando para o presidente da Câmara, caiu feito uma manga madura.
Imediatamente, todos a sua volta o socorreram, achando que devido ao dia muito exaustivo, ele tivesse tido uma queda de pressão. Mas, quando o fazendeiro apoiou a cabeça de Miro no seu colo, sentiu algo quente nem sua mão.
Retirou a mão debaixo da cabeça e viu que estava coberta de sangue.
Uma bala perdida de um caçador da região atingiu seu lóbulo esquerdo com tal precisão que Argemiro nem percebeu que havia encontrado a sua bala perdida.
Lau Baptista (Idéia para um curta metragem)

terça-feira, 4 de janeiro de 2011

Adélia Prado

"Dói-me a cabeça aos trinta e nove anos.
Não é hábito. É rarissimamente que ela dói.
Ninguém tem culpa. Meu pai, minha mãe descansaram seus fardos,
não existe mais o modo
de eles terem seus olhos sobre mim.
Mãe, ô mãe, ô pai, meu pai. Onde estão escondidos?
É dentro de mim que eles estão.
Não fiz mausoléu pra eles, pus os ...dois no chão.
Nasceu lá, porque quis, um pé de saudade roxa,
que abunda nos cemitérios.
Quem plantou foi o vento, a água da chuva.
Quem vai matar é o sol.
Passou finados não fui lá, aniversário também não.
Pra quê, se pra chorar qualquer lugar me cabe?
É de tanto lembrá-los que eu não vou.
Ôôôô pai
Ôôôô mãe
Dentro de mim eles respondem
tenazes e duros
porque o zelo do espírito é sem meiguices: Ôôôôi fia."

segunda-feira, 3 de janeiro de 2011

João Cabral de Melo Neto

"E não há melhor resposta
que o espetáculo da vida:
vê-la desfiar seu fio,
que também se chama vida,
ver a fábrica que ela mesma,
...teimosamente, se fabrica,
vê-la brotar como há pouco
em nova vida explodida;
mesmo quando é assim pequena
a explosão, como a ocorrida;
mesmo quando é uma explosão
como a de há pouco, franzina;
mesmo quando é a explosão
de uma vida severina."

Trecho de "Morte e vida Severina"

Resoluções de Ano Novo.

Impossível não pensar e tomar resoluções para um novo ano.

domingo, 2 de janeiro de 2011

Mario Quintana

Nunca
"Nunca ninguém sabe
se estou louco para rir ou para chorar...
Por isso o meu verso tem
...esse quase imperceptível tremor...
A vida é triste, o mundo é louco!
Nem vale a pena matar-se por isso.
Nem por ninguém.
Por nenhum amor...
A vida continua, indiferente"

sábado, 1 de janeiro de 2011

Boa Sorte!

Esse é o meu sincero desejo!
Sou brasileiro e nesses momentos, como hoje na posse da primeira presidente mulher da história do Brasil, fico emocionado e sinto-me orgulhoso de uma forma única e acredito ser esse o tal do patriotísmo.

sexta-feira, 31 de dezembro de 2010

Frei Betto

Para ti e para mim, um feliz ano-novo. Não mera troca numérica de calendário, de quem mantém o corpo inerte, preso às raízes da insensatez. Nem a sucessão de dias que se repetem no giro cíclico dos gregos antigos, desprovidos de senso histórico. Nem a multiplicação das rugas que se acumulam em nossos corações, oxidadas pela covardia e a saudade de não ser o que se é.
Anseio por um ano-novo capaz de reacender em nós energias generosas, consciência crítica, solidariedade discreta, afetos adormecidos, e a irrefreável vitalidade de quem reinventa o amor a cada dia. Um novo tempo de alegorias, no qual a poesia nos embriague a alma.
Um novo ano despido de soberbas, de evocações ególatras, de rancores asfixiantes e da indizível inveja causada pela felicidade alheia. Ano livre de rumores nefastos, incontinência da língua, indiferença à dor e exacerbação de tudo aquilo que, em nós, esculpe o perfil ácido da desumanidade.
Para ti e para mim desejo um ano-novo em que cada manhã ressoe como o cantar de laudes sob o esplendor de uma revoada de pássaros. E que sejamos despertados pelo afago prenhe de alvíssaras. Sejam os nossos gestos expressões litúrgicas de bem-querer e gratidões.
Não desejo um novo ano de velhos vícios arraigados, como não considerar suficiente o necessário, acumular supérfluos nas gavetas da casa e do coração ou a leniência perante as injustiças. Nenhum ano pode ser novo se arrastamos vida afora nossas almas incendiadas pela ira, o humor de mãos dadas com o rancor, o orgulho como escudo frente aos que apontam nossos erros.
Quero, para ti e para mim, um ano-novo em que a partilha do pão instaure a paz e no qual toda paixão aflore em duradouro amor. Um ano no qual o tempo se desenlace como um tecido fino e transparente, a enlevar-nos na rota do transcendente. Ano de silente contemplação do milagre da criação e cuidadosa proteção da mãe natureza.
Faço votos de que em 2011 a cegueira apague nossas fúteis ilusões e que brotos de saudáveis quimeras palmilhem a estrada que conduz ao mais íntimo de nós mesmos. Seja para nós um ano de muita fortuna, inflado de projetos promissores, destituído de mesquinharias e perjúrios.
Ano bom é o que traz efervescência espiritual, o vinho a inebriar-nos do sagrado, a alma tecida de alegrias inefáveis, os passos movidos pela vontade alada, o vigor juvenil de quem não encara a velhice como doença. Ano de reavivar antigas amizades, libertar-se dos apegos vorazes, trocar a tagarelice pelo aconchego reflexivo dos livros e deixar a música inundar nossos mais recônditos sentimentos.
Ano-novo é o que transfigura nossas mais secretas intenções e projeta luz nas veredas escavadas por cada uma de nossas positivas atitudes. Assim, haverão de cair as escamas de nossos olhos, os ouvidos acolherão a melodia sideral, o perfume do otimismo nos inebriará, e de nossos lábios brotarão cânticos de aleluia.
Para ti e para mim seja o ano de 2011 ninho de férteis esperanças e senda primaveril rumo a outros mundos possíveis. À mesa, a gratuidade inconsútil; à porta, nossas resistências desarmadas; à sala, um rumor de anjos. E seja toda a casa reduto de sabores e saberes agradáveis ao paladar e à inteligência.
Seja novo, para ti e para mim, o ano entrante, não por reiniciar a sucessão de meses, semanas e dias, e sim por revitalizar nossos bons propósitos, livrar-nos da letargia frente aos desafios espelhados na utopia e arrancar de nosso âmago toda erva daninha semeada por ambições desmedidas.
Novo por incutir em nós a modéstia translúcida de avós afetuosas, o fervor espiritual dos místicos, a exuberância dos bailarinos a multiplicarem as potencialidades do corpo. Ano de romper barreiras do preconceito, derrubar cercas da ganância, fertilizar com sementes altruístas o chão no qual pisamos.
Para ti e para mim, um feliz ano-novo no qual a vida seja diariamente celebrada como dom de Deus, dádiva amorosa, encantadora aventura.
Ao longo deste ano esteja sempre presente, em nossas mentes e em nosso agir, que viver é muito perigoso.

E Lá Se Foi Uma Década!

Estou fechando o ano e a primeira década do século XXI na praia da Almada, no litoral de São Paulo, em Ubatuba, uma das últimas praias antes da divisa com o Rio de Janeiro.
Hoje, voltando da praia, fiquei imaginando o que vai acontecer nessa próxima década que vamos iniciar amanhã.
Essa será a década da digitalização!
Nesses próximos 10 anos o ser humano e toda a sociedade será digitalizada.
Um exemplo simples são os automóveis. Até o final da década todo veículo terá um chip e assim, não será necessário qualquer outro documento do veículo. Quando um policial te parar, com um simples acesso pelo celular, ipad ou mesmo um relógio, ele terá todas as informações do veículo desde o dia que ele foi fabricado.
Isso também acontecerá com os animais, os produtos de uma forma geral e até com os seres humanos por simples opção. Imagina que poderemos ter um chip de tamanho insignificante no nosso corpo, numa corrente no pescoço ou braço e até na obturação de um dente.
Se acontecer qualquer tipo de acidente, os médicos ou qualquer um que estiver te socorrendo poderá acessar todas as informações sobre a sua saúde e até com quem deve falar para informar o fato.
Esse mundo digitalizado de que estou falando é algo que já existe e vem acontecendo há mais de 30 anos, mas agora, nessa década, vamos chegar ao primeiro passo da digitalização total.
A banda larga vai chegar a todos os rincões do planeta. Quem não tiver nenhum acesso pessoal irá acessar por intermédio de seus próximos.
De maneira muito simples, qualquer ser humano poderá comprar uma caneta do outro lado do mundo e receber em sua casa. Assim como, será quase banal você pesquisar na Biblioteca do Congresso Americano ou na Casa de Cultura de Cuba sem sair da varanda da sua casa.
Se você for inteligente e decidido, poderá estudar nas princípais escolas e faculdades do mundo, recolhendo o conhecimento e a sabedoria de tudo que te interessa e debatendo os assuntos em tempo real.
Repito, tudo isso já existe e está sendo praticado, mas agora, nessa próxima década, com a digitalização vai acontecer a democratização ao acesso.
Na última década o crescimento atingiu o seu ponto máximo de rápidez e agilidade, estamos crescendo no terreno do mundo digital com a capacidade de dobrar a velocidade a cada 2 anos. Nessa próxima década devemos atingir o nível de dobrar a cada 12 meses.
Voltando aos veículos, imagine como será fácil controlar o trânsito de uma cidade, grande ou pequena, de uma central de computação que enxerga toda a cidades, com ruas, avenidas, pontes, semáforos e todos os veículos em tempo real. No dia  em que o seu veículo não puder circular, será possível desligá-lo do painel da rede.
Outra coisa muito interessante será a possibilidade de a população resolver por plebicitos ou até por proposição de uma nova lei, como aconteceu com a lei da Ficha Limpa. Com a digitalização nesse nível que vamos atingir, poderemos votar todos os dias se for necessário.
Se for algo urgente, em poucas horas, via redes sociais, twiters e mensagens via fone você consegue mobilizar uma quantidade tão grande de pessoas que com uma assinatura digital pode aprovar e colocar uma lei em votação.
É lógico que isso acontecerá com muita resistência e com a criação de leis que vão reger tudo isso, mas a digitalização é inevitável.
As escolas, professores, alunos, curso, matérias, tudo será beneficiado se existir um projeto sério de mudança, pois virão à luz mediante a digitalização as possibilidades reais de educar uma sociedade de maneira eficiente com uma rapidez nunca antes imaginada.
Enfim, acredito que a segunda década desse novo século e milênio será oficialmente a década da confraternização universal pela comunicação digital. O acesso será universal e muito simples.
Ainda  pensando aqui, na praia da Almada, acho que no final de 2020, na estrada, bem na entrada para o trajeto que levará até os 300 metros de praia, em plena Mata Atlântica, existirá um portal com informações completas sobre a região e uma permissão de acesso de pessoas e veículos, controlados por chips e informações capturadas por seus sensores digitais.
Estaremos vivendo um grande Big Brother?
Não sei, mas saberemos em breve, afinal, parece que foi ontem a virada do milênio e agora, já se foi uma década.
Feliz 2011 e nova década a todos.
Lau Baptista

quinta-feira, 30 de dezembro de 2010

Adão Iturrusgarai

Clean

quarta-feira, 29 de dezembro de 2010

Cadillac, 1955

Ilustração para Cadillac, 1955 'The Christmas They'll Never Forget!'

Gilmar

terça-feira, 28 de dezembro de 2010

Perfeita e Feita a Mão

Ilustração para United States Department of War, sem ano, sem autor, mas maravilhosa!

domingo, 26 de dezembro de 2010

Russ Cook

Essa caricatura é daquelas que eu queria ter feito. Que coisa bonita! É uma caricatura, um quadro, o Clint Eastwood e uma obra de arte.
George Clooney

André Staehler


“Se o caminho parece ter 
chegado ao fim, talvez 
seja hora de começar a voar”.

Elegância

Dia desses, na saída de um consultório médico, um senhor, que já havia me atropelado na hora de apanhar um copo plástico (na fila do bebedouro), fez o favor de me dar um banho, quando me empurrou para passar primeiro pela pesada porta de vidro (que ele também deixou bater na minha cara). Depois, não satisfeito, saindo do estacionamento, ele abaixou o vidro do carro e jogou, sem cerimônia, o copo plástico no meio do asfalto.
Eu sei, esse caso não é nada comparado às atrocidades que presenciamos diariamente por toda cidade. (Sim, o mundo está infestado – e muito infelizmente, ainda não inventaram um repelente para os mal educados).
Por isso hoje fiquei com vontade de tirar a poeira de um assunto que não raro é tema de colunistas sociais e livros de dicas para “gente fina”. Mas, antes de falar disso (digo, antes que você torça o nariz para mim) farei um pedido:
Afaste-se por um momento dos conceitos e regras de etiqueta. Esqueça as coisas “grifadas”, caras ou de “marca”. Não pense em taças de cristal, champagne, caviar, nem salto fino. Esqueça também os artistas, as revistas, a primeira classe, aquela sua tia (magérrima, riquíssima, chiquééérrima), esqueça.
- Elegância não tem nada a ver com frescura - e com futilidade, menos ainda.
Agimos corretamente porque na vida logo a gente aprende que somente seguindo as regras (primeiro as de boas maneiras, depois as de transito, as da empresa e as do condomínio) evitamos o sonoro e velho “(a)pito”. - Aquele, que a gente escuta desde cedo, quando falamos de boca cheia ou limpamos a mão na toalha da mesa.
- Não faça isso menino!
Não tem jeito, crianças precisam de limites para aprender o que é errado, o que é certo, e para a construção do bom e velho “discernimento”. Mas, a verdade é que criamos e nos submetemos as nossas próprias regras porque coabitamos a Terra. E, assim sendo, a manutenção da convivência depende absolutamente do nosso “bom” comportamento.
Só que elegância não é só o exercício da boa educação.
Tsc, a elegância é desobrigada.
É um complemento natural, uma cortesia, um respeito e uma sabedoria.
“Ela é a arte de não se fazer notar, aliada ao cuidado sutil de se deixar distinguir”.
Paul Valéry.
Elegância não se compra (mesmo porque não está de fato à venda como sugere o mercado de luxo), ela é uma virtude que um pouco se herda e muito se aprende.
Ela está nas pessoas que falam baixo; nas que elogiam mais do que criticam; e nas que ouvem mais do que falam. Está nas pessoas que não dão bola para fofoca; nas que olham os garçons nos olhos; nas que seguram a porta do elevador e nas que evitam todo e qualquer assunto constrangedor.
A elegância está nas pessoas pontuais.
Elegante é quem demonstra interesse por assuntos que desconhece; e é quem cumpre o que promete.
Elegante é ser generoso.
É não falar de dinheiro, não contar vantagem, nem ser covarde com os outros. Elegante é a gentileza. É o sorriso. É oferecer ajuda e o lugar para alguém sentar. É fazer pelos outros indolores sacrifícios.
A elegância é um charme. Um inescrutável detalhe, que segundo a profética frase (no melhor estilo Pink e Cérebro), de Oscar Wild, traz em si um objetivo secreto e profundo:
“Os charmosos dominarão o mundo”.
- Ah Oscar, não precisava isso tudo…
Respeito e um pouco de atitude são suficientes para garantir sossego e boa ventura – (e isso é magnetismo puro!).
Mas, se para muitos, ser elegante parecer dar muito trabalho, então só educação mesmo resolve o caso.
Maria Sanz Martins
Visite o Blog O Provador de Maria Sans

sábado, 25 de dezembro de 2010

Então, É Natal!

Esse espírito é bom. Não importa o comércio todo que fizeram, quando se ouve algo assim a cabeça vai para outro lugar.

sexta-feira, 24 de dezembro de 2010

Natal

Árvore de Natal em exposição tendo ao fundo o monumento do fundador do Estado soviético, Vladimir Lênin, na praça da cidade de Rostov-on-Don. Rússia, 09 de dezembro de 2010.
Veja mais no site do IG

Natal

Estátua do bandeirante Anhanguera cercado pela iluminação de Natal do Parque Trianon, na região da Avenida Paulista. São Paulo, 1 de dezembro de 2010.
Veja mais no site do IG

Natal

Morador de rua vestido de Papai Noel olha para seu cachorro no Champs-Elysees, em Paris. França, 22 dezembro de 2010.
Veja mais no site do IG

Natal

Um homem vestido de Papai Noel pinta uma boneca de madeira chamada “Matryoshka”. Moscou, Rússia, 7 de dezembro de 2010.
Veja mais no site do IG

Boa Música e Bem Editada

Esse vídeo eu acabei de ver no Blog da minha amiga Mara Senna. E mais uma vez eu não resisti e copiei para colar aqui. Mara além de poetisa das boas é uma batalhadora das letras e das artes, prestigiando sempre todos os acontecimentos e comentando tudo no seu Blog que é Mara!
Dedico esse vídeo para os meus amigos José Márcio Castro Alves e Rosana Zaidan.

Um Cordel de Natal

quinta-feira, 23 de dezembro de 2010

Natal 1948

Ilustração de Pete Hawley, natal de1948. L'amour...toujours l'amour!