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terça-feira, 27 de julho de 2010

Oração

Sufi Bayazid nos conta, o seguinte de si mesmo :
"Na juventude, eu era um revolucionário e assim rezava: 'Dai-me energia, ó Deus, para mudar o mundo!'
Ao chegar à meia-idade, notei que metade da vida já passara sem que eu tivesse mudado homem algum.
Então, mudei minha oração, dizendo a Deus: 'Dai-me a graça, Senhor, de transformar os que vivem comigo dia a dia, como minha família e meus amigos; com isso já ficarei satisfeito'
Agora que sou velho e tenho os dias contados, percebo bem quanto fui tolo assim rezando.
Minha oração, agora, é apenas esta: 'Dai-me a graça, Senhor, de mudar a mim mesmo'
Se eu tivesse rezado assim, desde o princípio, não teria esbanjado minha vida."

quarta-feira, 9 de junho de 2010

Hipocrisia

Yahia, filho de Iskandar, nos faz o seguinte relato:
“Eu passava minhas noites na casa do Sufi Anwar Ali Jan. Os presentes que lhe davam os visitantes, serviam para comprar a comida que ele oferecia cada noite à seus convidados antes do momento da meditação.
Ele não permitia a ninguém de se aproximar dele; se sentava em um canto, e sua mão ia de sua cuia à boca. Numerosos visitantes observavam: “Este homem é arrogante e carece de humildade, pois se senta separado de seus convidados.”
Cada noite eu me aproximava um pouco mais dele e logo pude ver que, embora ele fizesse todos os gestos de quem levava comida à boca, ele não tinha nada em sua cuia.
Por fim não pude refrear minha curiosidade e lhe disse:
“Qual é a razão de teu estranho comportamento? Porque tu fazes de conta que comes e deixas as pessoas pretenderem que tu és arrogante enquanto que em realidade tu és modesto e frugal e não quer nem perturbar nem lhes causar vergonha, ó tu o mais excelente dos homens?”
Ele respondeu:
- É melhor que eles pensem que eu careço de modéstia, pelas aparências, do que me acharem virtuoso, se fiando somente às aparências. Não há pecado maior que atribuir mérito sobre as aparências. Agir desta forma, é insultar a presença da virtude interior e real, imaginando que ela não existe para ser percebida. Os homens de exterior julgam pelo exterior, mas pelo menos eles não contaminam o interior”.
Do livro "O Buscador da Verdade" de Idries Shah

terça-feira, 25 de maio de 2010

O Homem que Caminhava sobre a Água

Um dervixe de mentalidade meio simplória, de uma escola austeramente piedosa, caminhava certo dia pela margem de um rio. Ia absorto, concentrado em problemas escolásticos e de natureza moral, pois era esta a forma assumida pelo ensino sufi na comunidade a que ele pertencia.
Equiparava-se ali a religiosidade emocional com a busca da Verdade essencial.
De repente, seus pensamentos foram interrompidos por um forte grito. Alguém estava repetindo o apelo dervixe.
- Isto carece de sentido - disse para si mesmo - pois está emitindo incorretamente as sílabas. Em vez de pronunciar 'ya hu', ele está dizendo 'u ya hu'.
Pensou de imediato que era seu dever, como estudante mais aplicado, corrigir aquela pessoa desafortunada, que talvez não tivesse tido a oportunidade de ser orientada corretamente, dai que estivesse, quem sabe, fazendo o melhor que podia para interpretar a idéia contida atrás dos sons.
Desse modo, alugou um bote e se acercou da ilhota que ficava do outro lado do rio e de onde parecia vir o chamado.
Foi encontrar, então, sentado numa cabana de juncos, um homem vestido com um manto dervixe, que movia a cabeça e os braços seguindo o ritmo da frase iniciatória.
- Meu amigo, - disse o dervixe que viera no bote -, estás pronunciando incorretamente a frase. Cabe a mim dizer-lhe isso, já que há mérito tanto para aquele que oferece como para o que aceita conselho. Eis como se pronuncia a frase, - E a disse então.
- Obrigado - disse humildemente o outro dervixe.
O primeiro dervixe voltou a seu barco, muito satisfeito por ter praticado uma boa ação. Afinal, já foi dito que um homem capaz de repetir a fórmula sagrada corretamente poderia inclusive caminhar sobre as ondas; algo que nunca presenciara, mas que alimentara sempre a esperança - por alguma razão desconhecida - de realizar.
Agora nenhum som proveniente da cabana de juncos se fazia ouvir, mas estava certo de que sua lição fora bem acolhida.
Foi então que escutou um vacilante 'u ya', começando o segundo dervixe a repetir a frase da mesma forma de antes...
Enquanto o primeiro dervixe pensava no que acontecia, refletindo sobre a perversidade dos seres humanos e sua persistência no erro, observou de súbito um estranho espetáculo. Deixando a ilhota, o outro dervixe se acercava dele caminhando sobre a superfície das águas...
Surpreso, o primeiro dervixe parou de remar. O outro chegou junto dele e disse:
- Irmão, lamento incomodá-lo, mas tive que vir aqui para perguntar-lhe sobre a maneira usual de pronunciar a repetição da fórmula como me ensiou, pois me é difícil recordá-la.
Extraído do livro: Histórias dos Dervixes - Idries Shah - 1976.

quarta-feira, 3 de março de 2010

Quando a Morte Chegou a Bagdá

O discípulo de um sufi de Bagdá estava certo dia sentado a um canto de uma hospedaria, quando ouviu dois personagens conversarem. Pelo que pôde ouvir, percebeu que um deles era o Anjo da Morte.
- Tenho várias visitas para fazer nesta cidade durante as próximas três semanas - dizia o anjo a seu companheiro.
- Aterrorizado, o discípulo procurou ocultar-se até que aqueles dois partissem. Então, apelando à sua inteligência para resolver o problema de como frustar uma possível visita da morte, concluiu que, caso se mantivesse distante de Bagdá, não seria vitimado. Dessa ideia à resolução de alugar um cavalo, o mais veloz ali existente, foi apenas um passo. O discípulo montou no animal e picando esporas cavalgou noite e dia rumo à distante cidade de Samarkand. Enquanto isso, a morte se encontrou com o mestre sufi e conversaram a respeito de várias pessoas.
- Por falar nisso, onde está aquele seu Discípulo? - Indagou a morte.
- Deve estar em algum lugar desta cidade, empregando seu tempo em contemplação, talvez numa hospedaria - Retrucou o sufi.
- Que estranho... - disse o Anjo da Morte. - Ele se acha em minha lista. Sim, aqui está: tenho que recolhê-lo dentro de quatro semanas, nada menos que em Samarkand.

domingo, 22 de novembro de 2009

Os Dois Irmãos

Era uma vez dois irmãos que cultivavam a terra juntos e sempre compartilhavam as colheitas.
Um dia, um dos irmãos despertou durante a noite e pensou: "Meu irmão é casado e tem filhos. Por isso, tem necessidade e despesas que eu não tenho. Então, colocarei algumas de minhas sacas em sua despensa, o que é mais do que justo. Farei isso na calada da noite para não acontecer que, por sua generosidade, não queira aceitá-Ias.
Levou as sacas e voltou para a cama.
Pouco depois, o outro irmão despertou e disse: "Não é justo que eu tenha a metade de todo o milho de nossa terra. Meu irmão, que é solteiro, não tem o prazer de possuir uma família e, portanto, tentarei compensá-lo passando um pouco do meu milho para sua despensa". E assim fez.
Na manhã seguinte, ambos ficaram surpresos ao ver que havia o mesmo número de sacas em sua despensa e não puderam compreender como, ano após ano, o número de sacas continuava sendo o mesmo, ainda que as transferissem às escondidas.
Ainda que o negue, o homem geralmente pensa de forma contrária a esta. Tem medo e uma espécie de rancor ante a possibilidade de obter uma porção menor do que aquela que lhe corresponde, e sempre calcula que merece muito mais do que o que recebe. É devido a esta forma equivocada de pensar que se encontra no estado em que o vemos hoje.
Extraído de 'O Sufismo no Ocidente' - Edições Dervish 1988