quarta-feira, 27 de maio de 2009

São Nicolau de Malá Strana

Júlio José Chiavenato, meu amigo de longa data, escritor de renome internacional, viajando pela Europa, encontrou em Praga, capital da República Checa, conhecida como uma das cidades mais bonitas do mundo, o São Nicolau de Malá Strana. Fotografou e trouxe de presente para este blogueiro iniciante.
Como grande jornalista, aproveitou e trouxe algumas informações básicas.
A Igreja de São Nicolau foi construída na primeira metade do século XVIII em estilo barroco por Dientzenhofer, pai e filho. A valiosa decoração dos interiores são dominadas por afrescos de J. L. Krackera com motivos da vida de São Nicolau, esculturas de tamanho natural do escultor I. F. Platzer e pinturas de Karl Škrét. Wolfgang Amadeus Mozart, durante a sua estadia em Praga, tocou no órgão da igreja. Aberta ao público encontra-se também o campanário da Igreja com vista para a Malá Strana.
Valeu, meu amigo!

MAFALDA

Para quem já conhece, vai ser um prazer rever.
Para quem não conhece, pode acreditar, esta é uma grande oportunidade de conhecer.
Mafalda é um presente do argentino Quino para todo o mundo.
Um desenhista de mão cheia, com um texto inteligente, perspicaz, contestador e muito bem humorado.
Conheça tudo sobre o Quino e seus personagens no
www.mafalda.net, vale a pena!

ACABEI DE DESCOBRIR

Acabei de descobrir na internet que hoje é o Dia Mundial da Mata Atlântica.
E acho impossível que algum ser humano, pleno de sua consciência, acredite que é certo termos destruído 93% da Mata Atlântica.
Sabemos da capacidade que nós homens temos de destruição, mas, mesmo assim, é chocante quando nos deparamos com esses números.
De qualquer forma, como tudo, tem o outro lado. Existe esperança. A SOS Mata Atlântica, entidade que merece o respeito de todos nós brasileiros, faz um trabalho muito rigoroso e com sucesso de recuperação de áreas da mata perto de nascentes.
Ajude!

Guimarães Rosa


Mario Quintana


terça-feira, 26 de maio de 2009

O Texto Inédito da Fátima Chaguri


No ano passado, pedi para a Fátima um texto para o Guia Centro de Ribeirão, segunda edição. Ela prontamente enviou-me o texto e, como sempre, disse que não estava muito bom e tal e coisa.
O Guia foi publicado em Julho e, por um erro meu, o texto da Fátima não saiu. Fiquei triste, mas, desde então, fico imaginando que ainda vou usar esse texto em algo que possa homenagear essa amiga e cidadã ribeirãopretana de coração.

O Centro em mim
Pensei muito antes de iniciar minha lida com este texto. Queria escrever sobre o centro da cidade, objetivamente, mas Ribeirão Preto é minha cidade e não é possível pensá-la sem mim.
Como dizer do mercado municipal, o “mercadão”, sem sentir o cheiro de manhã de domingo e sem sentir a mão de meu pai tomando a minha mão para irmos até ele, a pé? Lá eu ganharia a maçã mais linda, a “da bruxa da Branca de Neve”, ou então um pedaço de melancia ou mesmo um copo de vitamina.
Como dizer da Rua General Osório sem dizer dos sábados à noite, quando meu pai, minha mãe, meu irmão Maurício e eu íamos ver vitrines? Encontrávamos famílias fazendo o mesmo programa. Sabia de cada ladrilho das calçadas, dos luminosos e dos espelhos. Na subida, passeávamos pela direita até o Cine Centenário. Parávamos na Camisaria Affonso para meus pais avaliarem sua cria. Eles ficavam muito ali. Na volta, íamos admirar a fonte luminosa da praça XV, comprar pipoca, tomar sorvete nos Lanches Paulista, passear pela Lojas Realce, Chapelaria Olímpica....
O tempo passando, minha cidade se modernizando, e eu fui crescendo nas filas do cinema, comendo lanche nas Lojas Brasileiras, comprando LPs na Discolar, assistindo às missas da Catedral, visitando o Serv-Lev, o primeiro supermercado da cidade.
Como não dizer da rádio PRA-7, sem falar que lá o papagaio do meu tio Sílvio ganhou um prêmio porque disse Tyressoles? Como não falar dos carnavais sem dizer das bisnagas com água que levávamos conosco para ver o carnaval de rua na General Osório e na Praça XV?
Como dizer da biblioteca Altino Arantes e Padre Euclides, onde folheávamos livros e os líamos, sem mencionar o Seu Guerino, proprietário da Livraria A Acadêmica que, apaixonado pelos livros, ensinava-nos o prazer de abrir um deles e morrer de vontade de lê-lo?
Como dizer de educação sem lembrar o Otoniel Motta e o Segundo Grupo, sem lembrar o Colégio Auxiliadora e o Santa Úrsula, sem lembrar a força dos professores e a seriedade dessas instituições, desde os tempos da saia pregueada e das meias três quartos?
Como não dizer do jornalismo no tempo de Ribeirão com 100.0000 habitantes, sem mencionar o jornal A Cidade, o Diário de Notícias, O Diário, o Diário da Manhã, onde meu irmão André escrevia na coluna forense?
Parafraseando Drummond, digo que ficou um pouco de mim no Cine Suez, onde dei meu primeiro beijo; um pouco de mim no Cine Centenário, onde, nos reclames iniciais, se apresentavam meu irmão Zé Carlos e Mário Lorenzato, fazendo propaganda da Camisaria Affonso; no Cine São Jorge, cuja instalação elétrica foi feita pelo tio Jairo e tio Nico; no Cine Pedro II, o “Pedrão”, que deixou de ser teatro para me deixar conhecer filmes como “2001, uma Odisséia no Espaço”. Estou nos prédios e os prédios estão em mim.
Sempre soube da tese de que o espaço geográfico interfere na identidade do homem e ele, por sua vez, também interfere no espaço. Odisséia, de Homero, já apresentou Ulisses voltando a Ítaca, seu espaço, ele mesmo. Mas só hoje percebo isso de perto. Volto-me à minha Ribeirão e volto a mim mesma. Volto ao Centro e estou comigo.

Filhos, filhos...

Arcangelo Ianelli morreu


Ianelli foi o primeiro artista abstrato por quem me interessei. Quando vi aquelas suas telas enormes, de cores pastel, quase fundindo-se uma na outra, em forma de quadrados, retângulos e linhas infinitas, apaixonei-me imediatamente. Foi amor à primeira vista, por uma arte pela qual, até então, eu sempre tinha um pé atrás.
Depois, fui conhecendo a sua história, seu aprendizado que passou do carvão até as tintas que ele preparava com têmpera de ovo. Em 86 anos de vida, Ianelli recebeu muitos prêmios, fez pinturas e esculturas e, em 2004, ganhou um livro sobre sua obra.
E assim, mais um grande artista se vai e fica a sua obra para a eternidade.
26 de Maio de 2009

Arte Pau Brasil - Guimarães Rosa


No centro, minha vida

Vivíamos em Jaú, e meu pai, o Athanásio, era dono do Hotel Jaú...
Todo ano minha família vinha para Ribeirão, onde os avós João Milona e Ângela nos recebiam em festa grega. Eles eram donos do Umuarama Hotel, hoje Vila Real, bem no centro desta maravilhosa cidade.
Aos 17 anos, mudei de Jaú para Ribeirão, pois meu pai, um imigrante grego nascido em Alexandria (Egito) e formado em agronomia em Salônica (Grécia), decidiu construir o Black Stream Hotel. Ele achava que para minha mãe seria melhor estar mais perto de seus pais. Também acreditava que Ribeirão era uma praça melhor do que Jaú.
Formei-me no Otoniel Mota, um ícone educacional nacional, assim como boa parte das escolas públicas brasileiras da época.
Numa tarde de junho de 1974, quando estudava administração na Universidade de Brasília, tive de voltar às pressas para Ribeirão: meus pais tinham falecido em um acidente perto de Jaboticabal. Sem escolha, com 21 anos recém celebrados, assumi com minha irmã o destino que meus pais, sem querer, me traçaram: ser arrimo de família e responsável por três irmãos menores. De uma hora para outra, inexperiente, sem saber de nada, visto a camisa de um cinqüentão e empunho a bandeira do pai, do líder empresarial, do modelo para outras pessoas. Como o sobrevivente de um naufrágio, largo a vida de estudante em Brasília e abraço a vida de hoteleiro em Ribeirão. Ana, a irmã, foi dar aulas de matemática.
Nosso desamparo era tão grande que não percebíamos: toda a sociedade nos ajudava. Otávio de Souza Silveira, grande amigo de papai, auxiliou-me nos negócios.
Aprendendo rápido e com muita determinação, parti para a construção do Stream Palace Hotel. Inaugurado em 1979, é até hoje um cartão de visitas da cidade.
Naquela época, a hotelaria era um negócio muito rentável, atraindo capitais em busca de segurança e rentabilidade a longo prazo. Perdi a conta dos hotéis construídos desde então na cidade.
Já havia o Proálcool, mas não imagi-návamos que Ribeirão se tornaria o “berço mundial do etanol”, o maior reservatório de energia verde do planeta na atualidade.
Só de imaginar que toda essa história começou no centro, e nós todos somos dela protagonistas, me dá alegria e muita vontade de comemorar. Não podemos, porém, ficar no oba-oba. É preciso continuar a caminhada por um mundo mais limpo e mais belo.
Agora é chegada a hora de fazermos de Ribeirão “a cidade com maior número de árvores por habitante do planeta Terra.”
PLANTE ESSA IDÉIA!
Nós já começamos.
Texto de Saranti Sarantopoulos publicado no Guia Centro de Ribeirão - Edição Jul 08

Saudade daquele lindo descampado

Quando mudamos para os altos da cidade e para a sonhada casa própria em 1963, lá pelos lados da Arthur Bernardes, quase nada existia naquele pedaço da cidade.
Uma ou outra residência não nos tirava a vista daquele lindo descampado. Como se fossem milhares de campos de futebol onde nossos pés de moleque iniciaram o prazeroso convívio com a bola.
Ao sul, dezenas de chácaras e pequenas fazendas, onde hoje os condomínios fechados isolam milhares de pessoas, nos ofereciam a possibilidade de desbravar ambientes rurais em longas caminhadas até Bonfim Paulista. Um espaço em um tempo que como diria Sivuca,
“dos pardais,
de verdes nos quintais,
sem os ladrões atrás,
quando ainda havia fadas.
Onde os jovens davam lugar
para quem chegar sentar
e dos lampiões a gás.
Porém, veio um Marquês
de uma terra já perdida
e de uma vez
se fez dono da vida.
Mandou buscar cem dúzias
de avenidas
e expulsou de vez
as margaridas.
Por não ter filhos
ou talvez por não gostar
ou apenas
por manias de mandar”.
Esta região muito se modificou nestes quase cinqüenta anos, mas a lembrança daqueles tempos em que éramos puros e felizes por inteiro se mantém como uma relíquia luminosa que ainda nos guia.
As crianças de hoje já não podem usufruir da mesma natureza o que é uma pena, pois certamente seriam mais humanas e saudáveis.
É o preço que pagamos pelo que chamamos de progresso e desenvolvimento. Infelizmente.
Texto de Dr. Sócrates Brasileiro publicado no Guia Sul de Ribeirão - Edição Dez 2007

Meu Quintal

Quando a gente mudou pro alto da cidade (em 1963 era assim que chamavam o Sumaré), aquilo ali era o fim do mundo.
Meu pai plantou um sobrado no meio de um pasto, garantindo assim uma das suas diversões prediletas, jogar pedra nas vacas que insistiam em pastar no nosso gramado, naquele tempo as casas não tinham grades, nem muros, só portas e janelas.
Era um pasto imenso, com pouquíssimas ruas de terra riscadas naquele imenso lugar nenhum. O único asfalto existente era o surreal balão do Sumaré. A única cerca no pedaço, de arame farpado, cercava o seminário dos padres, com seus pomares, suas árvores, seus 2 campos de futebol onde grandes clubes da capital, virava e mexia, vinham treinar em suas visitas a cidade.
Nestes campos de futebol, um pedaço do mundo passou pela porta da minha casa. Teve circo, teve parque de diversão com montanha russa, teve show de música, teve um pedaço enorme da minha vida.
E essa vizinhança, tão minha, foi sendo, ano após ano, desesperadamente invadida.
Asfalto na rua, em uma pista da avenida, nas duas pistas da avenida, em todos os caminhos de terra.
Vizinhos aos montes. No começo, só residências de alegres famílias começando a vida no então bairro chique da cidade.
Lá pelos anos 70, com a inauguração da Eletroradiobraz (que era o nome do Pão de Açúcar 24 Horas naquela época), o que o futuro reservava para o meu enorme quintal, começava a ser desenhado.
O que era bairro de alegres famílias, cresceu explosivamente, junto com a cidade: placas, faróis, clínicas, lojas, escritórios, farmácia, carros e gentes, aos montes.
E a minha rua, que era tão minha, ganhou sinalização de mão única, que eu fazia questão de ignorar, até a segunda multa de trânsito por entrar na contramão. Foi então que percebi, finalmente, meu quintal fazia parte do resto da cidade.
Texto de Ruy Marques publicado no Guia Sul de Ribeirão - Edição Dez 2007

Presente de Ano Novo


Minha família, isto é, meu pai, mãe e 9 irmãos, morávamos em São Bernardo do Campo. Meu pai trabalhava como dentista em Rudge Ramos e, na manhã do dia 31 de dezembro de 1970, sem ter um tostão em casa para comemorar a passagem do ano, falou para a minha mãe:
– Mariinha, vou lá para o consultório, quem sabe aparece alguém.
Não sei se minha mãe retrucou, mas sei que ele foi.
No final da tarde, ele chegou em casa com muitas sacolas e embrulhos.
Tinha de tudo para uma bela ceia. Todos ficaram felizes e minha mãe preparou uma ceia deliciosa como sempre fez todos os anos.
Um tempo depois, conversando com meu pai na varandinha de nossa casa na rua Bering, ao lado dos famosos Estúdios da Vera Cruz em São Bernardo do Campo, meu pai me contou o que havia acontecido.
Naquele dia 31, já quase no final da tarde, não havia aparecido um paciente.
Meu pai já estava cansado e desanimado, pensando em voltar pra casa de mãos abanando, quando entrou um senhor já de idade.
Chegou resoluto, queria fazer um tratamento completo na boca. Meu pai olhou, achou estranho, mas fez a ficha e o orçamento. Sr. Rosenberg, não regateou e nem pestanejou, abriu a carteira, tirou o valor em dinheiro e pagou o tratamento à vista e se foi, com retorno marcado para o dia 02 de janeiro de 1971.
Neste dia em que meu pai contou a história, já fazia mais de mês e o Sr. Rosenberg não havia aparecido.
E assim, ocorreu, o Sr. Rosenberg nunca mais apareceu.

segunda-feira, 25 de maio de 2009

Grande Millôr


Isso É que É!


Guimarães Rosa


Caio Fernando Abreu

Pequenas Epifanias

Dois ou três almoços, uns
silêncios. Fragmentos disso que
chamamos de “minha vida”

Há alguns dias, Deus – ou isso que chamamos assim, tão descuidadamente de Deus –, enviou-me certo presente ambíguo: uma possibilidade de amor. Ou disso que chamamos, também com descuido e alguma pressa, de amor. E você sabe a que me refiro.
Antes que pudesse me assustar e, depois do susto, hesitar entre ir ou não ir, querer ou não querer – eu já estava lá dentro. E estar dentro daquilo era bom. Não me entenda mal – não aconteceu qualquer intimidade dessas que você certamente imagina. Na verdade, não aconteceu quase nada. Dois ou três almoços, uns silêncios. Fragmentos disso que chamamos, com aquele mesmo descuido, de “minha vida”. De repente cruzadas ali, por puro mistério, sobre as toalhas brancas e os copos de vinho ou água, entre casquinhas de pão e cinzeiros cheios que os garçons rapidamente esvaziavam para que nos sentíssemos limpos. E nos sentimos.
Por trás do que acontecia, eu redescobria magias sem susto algum. E de repente me sentia protegido, você sabe como: a vida toda, esses pedacinhos desconexos, se armavam de outro jeito, fazendo sentido. Nada de mal me aconteceria, tinha certeza, enquanto estivesse dentro do campo magnético daquela outra pessoa. Os olhos da outra pessoa me olhavam e me reconheciam como outra pessoa, que suavemente faziam pergunta, investigavam terrenos: ah você não come açúcar, ah você não bebe uísque, ah você é do signo de libra. Traçando esboços, os dois. Tateando traços difusos, vagas promessas.
Nunca mais sair do centro daquele espaço para as duras ruas anônimas. Nunca mais sair daquele colo quente que é Ter uma face para outra pessoa que também tem uma face para você, no meio da tralha desimportante e sem rosto de cada dia atravancando o coração. Mas no quarto, quinto dia, um trecho obsessivo do conto de Clarice Lispector – Tentação – na cabeça estonteada de encanto: “Mas ambos estavam comprometidos. Ele, com sua natureza aprisionada. Ela, com sua infância impossível”. Cito de memória, não sei se correto. Fala no encontro de uma menina ruiva, sentada num degrau às três da tarde, com um cão basset também ruivo, que passa acorrentado. Ele pára. Os dois se olham. Cintilam, prometidos. A dona o puxa. Ele se vai. E nada acontece.
De mais a mais, eu não queria. Seria preciso forjar climas, insinuar convites, servir vinhos, acender velas, fazer caras. Para talvez ouvir não. Há não ser que soprassem tanto vento que velejasse por si. Não velejou. Além disso, sem perceber, eu estava dentro da aprendizagem solitária do não-pedir. Só compreendi dias depois, quando um amigo me falou – descuidado, também – em pequenas epifanias. Miudinhas, quase pífias revelações de Deus feito jóias encravadas no dia a dia.
Era isso – aquela outra vida, inesperadamente misturada à minha, olhando a minha opaca vida com os mesmos olhos atentos com que eu a olhava: uma pequena epifania. Em seguida vieram o tempo, a distância, a poeira soprando. Mas eu trouxe de lá a memória de qualquer coisa macia que tem me alimentado nestes dias seguintes de ausência e fome. Sobretudo à noite, aos domingos. Recuperei um jeito de fumar olhando para trás das janelas vendo o que ninguém mais veria.
Atrás das janelas, retomo esse momento de mel e sangue que Deus colocou tão rápido, e com tanta delicadeza, frente aos meus olhos há tanto tempo incapazes de ver: uma possibilidade de amor. Curvo a cabeça, agradecido. E se estendo a mão, no meio da poeira de dentro de mim, posso tocar também em outra coisa. Essa pequena epifania. Com corpo e face. Que recomponho devagar, traço a traço, quando estou só e tenho medo. Sorriu, então. E quase paro de sentir fome
.

Amizade


sábado, 23 de maio de 2009

UMA CASA NO CAMPO CONTINUA SENDO UMA BOA OPÇÃO

Sá, Zé Rodrix e Guarabira

Nos anos 70, quando comecei a trabalhar em jornal, era comum o Toninho Achê passar no jornal depois da faculdade e juntos irmos para a chácara da família dele que ficava na Palmeirinha, atravessando a rodovia Anhanguera atrás do Jockey Clube.
Lá, tinha uma pequena casa com uma sala, um quarto, um banheiro e uma cozinha. Na sala, tinha um quadro grande, desses que vendem pelas ruas das cidades, com uma paisagem bucólica super colorida. Neste quadro, o Toninho escreveu com uma caneta bic: Eu quero uma casa no campo onde possa compor muitos rocks rurais.
Ontem, dia 22 de maio, morreu o Zé Rodrix, autor da música Casa no Campo que fez muito sucesso nos anos 70 cantado pela Elis Regina.
Zé Rodrix também fez outros grandes sucessos como as músicas "Mestre Jonas" e "Soy Latino Americano".
O tempo passou, o mundo mudou, mas lendo a letra da música agora, da para entender o porque do sucesso, afinal, a idéia continua sendo muito boa, não é?.

Casa No Campo
Composição: Zé Rodrix e Tavito
Eu quero uma casa no campo
Onde eu possa compor muitos rocks rurais
E tenha somente a certeza
Dos amigos do peito e nada mais
Eu quero uma casa no campo
Onde eu possa ficar no tamanho da paz
E tenha somente a certeza
Dos limites do corpo e nada mais
Eu quero carneiros e cabras pastando solenes
No meu jardim
Eu quero o silêncio das línguas cansadas
Eu quero a esperança de óculos
Meu filho de cuca legal
Eu quero plantar e colher com a mão
A pimenta e o sal
Eu quero uma casa no campo
Do tamanho ideal, pau-a-pique e sapé
Onde eu possa plantar meus amigos
Meus discos e livros
E nada mais

sexta-feira, 22 de maio de 2009

Milho de PIPOCA

Milho de pipoca que não passa pelo fogo continua a ser milho para sempre.
Assim acontece com a gente. As grandes transformações acontecem quando passamos pelo fogo. Quem não passa pelo fogo, fica do mesmo jeito a vida inteira. São pessoas de uma mesmice e uma dureza assombrosa.
Só que elas não percebem e acham que seu jeito de ser é o melhor jeito de ser. Mas, de repente, vem o fogo. O fogo é quando a vida nos lança numa situação que nunca imaginamos: a dor. Pode ser fogo de fora: perder um amor, perder um filho, o pai, a mãe, perder o emprego ou ficar pobre.
Pode ser fogo de dentro: pânico, medo, ansiedade, depressão ou sofrimento, cujas causas ignoramos. Há sempre o recurso do remédio: apagar o fogo! Sem fogo o sofrimento diminui. Com isso, a possibilidade da grande transformação também. Imagino que a pobre pipoca, fechada dentro da panela, lá dentro cada vez mais quente, pensa que sua hora chegou: vai morrer.
Dentro de sua casca dura, fechada em si mesma, ela não pode imaginar um destino diferente para si. Não pode imaginar a transformação que está sendo preparada para ela. A pipoca não imagina aquilo de que ela é capaz. Aí, sem aviso prévio, pelo poder do fogo a grande transformação acontece: BUM!
E ela aparece como uma outra coisa completamente diferente, algo que ela mesma nunca havia sonhado. Bom, mas ainda temos o piruá, que é o milho de pipoca que se recusa a estourar. São como aquelas pessoas que, por mais que o fogo esquente, se recusam a mudar. Elas acham que não pode existir coisa mais maravilhosa do que o jeito delas serem. A presunção e o medo são a dura casca do milho que não estoura.
No entanto, o destino delas é triste, já que ficarão duras a vida inteira. Não vão se transformar na flor branca, macia e nutritiva. Não vão dar alegria para ninguém.
(extraído do livro "O amor que acende a lua", de Rubem Alves – Editora Papirus)

Manoel de Barros é um presente vivo!

No descomeço era o verbo.
Só depois é que veio o delírio do verbo.
O delírio do verbo estava no começo, lá onde a criança diz:
Eu
escuto a cor dos passarinhos.
criança não sabe que o verbo escutar não funciona
para cor, mas para som.
Então se a criança muda a função de um verbo,

ele delira.
E pois.
Em poesia que é voz de poeta, que é a voz de fazer
nascimentos -

o verbo tem que pegar delírio.

Manoel de Barros

Adélia Prado, isso que é casar.

Casamento
Há mulheres que dizem:
Meu marido, se quiser pescar, pesque,
mas que limpe os peixes.
Eu não. A qualquer hora da noite me levanto,
ajudo a escamar, abrir, retalhar e salgar.
É tão bom, só a gente sozinhos na cozinha,
de vez em quando os cotovelos se esbarram,
ele fala coisas como “este foi difícil”
“prateou no ar dando rabanadas”
e faz o gesto com a mão.
O silêncio de quando nos vimos a primeira vez
atravessa a cozinha como um rio profundo.
Por fim, os peixes na travessa,
vamos dormir.
Coisas prateadas espocam:
somos noivo e noiva.

Sem palavras




Homenagem ao Augusto Boal

Essa frase é do Boal. Acho que este foi um dos primeiros cartões que fiz. Com certeza tem mais de 20 anos.
O diretor de teatro, dramaturgo e ensaísta Augusto Boal, morreu aos 78 anos no dia 2 de maio deste ano. Boal foi um dos expoentes do Teatro de Arena de São Paulo (1956 a 1970) e fundador do Teatro do Oprimido (inspirado nas propostas do educador Paulo Freire).
No começo deste ano, Boal foi nomeado embaixador mundial do teatro pela Unesco

Cora Coralina, essa menina sabia de tudo!

Humildade

Senhor, fazei com que eu aceite
minha pobreza tal como sempre foi.

Que não sinta o que não tenho.
Não lamente o que podia ter
e se perdeu por caminhos errados
e nunca mais voltou.

Dai, Senhor, que minha humildade
seja como a chuva desejada
caindo mansa,
longa noite escura
numa terra sedenta
e num telhado velho.

Que eu possa agradecer a Vós,
minha cama estreita,
minhas coisinhas pobres,
minha casa de chão,
pedras e tábuas remontadas.
E ter sempre um feixe de lenha
debaixo do meu fogão de taipa,
e acender, eu mesma,
o fogo alegre da minha casa
na manhã de um novo dia que começa.
Cora Coralina - 1976

Alice Ruiz

Há muitos anos faço cartões postais. Não sei quantos tenho feitos, mas sei que são mais de 100. Gosto muito desta forma de fazer arte, porque além de reunir imagem e texto ainda anda por lugares inimagináveis.

quinta-feira, 21 de maio de 2009

ANOS 70, NY, Yoko, John Lennon e Eu


Os Dervixes Mevlevi

Um giro secreto em nós faz girar o universo
A cabeça desligada dos pés, e os pés da cabeça.
Nem se importam. Só giram, e giram.
(Rumi)

O 'giro', meditação em movimento feita pelos dervixes Mevlevi, começou com Rumi.
Conta a história que ele andava pela seção dos ourives em Konya (na Turquia) quando percebeu uma linda música no som dos martelos.
Começou a girar em harmonia com o som, numa dança extática de entrega mas mantendo-se centrado. Ele chegou a um ponto em que o ego se dissolve e entra-se em ressonância com o espírito universal.
Dervixe significa 'passagem'.
Quando a comunicação flui de presença a presença, ocorre o darshan, com linguagem por dentro da visão. Quando a gravidade puxa com mais força, os dois se tornam um só giro que é molecular e galático e uma lembrança espiritual da presença no centro do universo.
Girar é uma imagem de como o dervixe se torna um lugar livre para o humano e o divino se encontrarem. Para alcançar o todo, a parte deve ficar louca.
Esse povo sagrado extático, chamados de "matzubs" na tradição sufi, redefine este tipo de loucura como a verdadeira saúde.
Quando viu os dervixes no Cairo, em 1910, Rainer Maria Rilke, o grande poeta espiritual deste século, disse que os giros eram uma forma de ajoelhar-se.
17 de dezembro é celebrado todos os anos como o dia do casamento de Rumi, a noite em que ele morreu e atingiu a união perfeita.

Uma Homenagem ao Grande Poeta Gaúcho

POEMINHA DO CONTRA
Todos estes que aí estão
Atravancando o meu caminho,
Eles passarão.Eu passarinho!
Mario Quintana

A família Baldassare

Vejam que foto linda!
Uma verdadeira foto do início do século XX.
Foto de estúdio onde cada detalhe era estudado.
Depois da montagem de todos os detalhes, o fotográfo, aquele novo modelo de artista, que começava a nascer, pedia para todos ficarem imóveis, pois a exposição da luz demorava, não existia ainda o instântaneo.
Nesta foto, da esquerda para a direita, você vê: (no fundo, em pé) Natal, Carmen, Emilia, Rita e Angelina (na frente), Assumpta, Maria, Adelina, Paschoal e Carolina, minha avô materna.